quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Vendas de ônibus amargam queda de 13,82% até agosto

Economia fraca e indefinições no setor de transportes de passageiros continuam desestimulando a compra de veículos novos Valer ressaltar também que maus empresários e a postura de gestores públicos que levanta dúvidas influenciam negativamente o mercado.



Além da conjuntura do País, que registra baixo ritmo econômico, e de questões específicas do segmento de transportes, a postura de alguns gestores públicos e empresários que permitem o sucateamento dos serviços, travam ou não deixam interessantes licitações e não renovam as frotas também influencia negativamente no mercado. Foto: Thiago de Souza.


Há segmentos que são o reflexo de um momento econômico. E com certeza a indústria de caminhões e ônibus está entre eles.
Como estes veículos tratam-se de bens de capital, se há queda nas vendas é um sinal de que a economia como um todo não está gerando oportunidades de investimentos.
Caminhões e ônibus significam mais bens para atender outros segmentos da indústria, obras, mais pessoas indo trabalhar, frequentando estabelecimentos comerciais, entre outros cenários.
Mas não é isso que está ocorrendo no Brasil. Com previsão do PIB – Produto Interno Bruto podendo ficar abaixo de 1 por cento, as vendas de caminhões e ônibus mostram forte retração.
É o que revelou mais uma vez a Fenabrave – Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores, no balanço do acumulado de janeiro a agosto, divulgado nesta terça-feira, dia 02 de setembro de 2014.
Nos oito primeiros meses deste ano, as vendas de ônibus somaram 19.873 unidades. O número representa queda de 13,82% em relação aos 23 mil e 60 ônibus emplacados entre janeiro e agosto do ano passado.
Se as vendas por mês estavam esboçando uma recuperação, em agosto o ciclo foi interrompido e houve nova queda. Em julho, a Fenabrave registrou a venda de 2.481 ônibus. Já em agosto, foram vendidos 2.417, a queda foi de 2,58%.
Se for comparado o desempenho de agosto do ano passado com agosto deste ano, mais uma queda. Se neste mês de agosto a indústria de ônibus vendeu 2.417 unidades, em agosto do ano passado foram vendidos 3.111 ônibus. A queda de agosto deste ano para agosto de 2013 foi de 22,31%.
O segmento de caminhões também não está nada animador. Com 88.710 unidades vendidas entre janeiro e agosto de 2014, a queda é de 13,85 % na comparação aos 102.975 caminhões vendidos em igual período de 2013.
Considerando carros de passeio (-12,44%), comerciais leves (+0,54%), caminhões (-13,85%), e ônibus (-13,82%), o setor automotivo amarga no acumulado do ano queda nas vendas de 9,73%. Entre janeiro e agosto do ano passado, foram vendidos 2.470.421 destes veículos enquanto que em semelhante intervalo de tempo em 2014, as vendas somaram 2.230.126 carros de passeio, comerciais leves, caminhões e ônibus.
O segmento de motos também registra queda. Nos oito primeiros meses de 2013, foram vendidas 1 milhão 011 mil 566 motos. Já neste ano, de janeiro a agosto, foram 950 mil 048 motos, o que significa queda de 6,08%.

PROBLEMAS ESPECÍFICOS DO SETOR DE TRANSPORTES COLETIVOS

Além de a economia brasileira registrar uma significativa desaceleração, mesmo com ameaça constante do crescimento da inflação, o que inicialmente parece ilógico, mas está acontecendo, há problemas relacionados ao setor de transportes de passageiros.
 ÔNIBUS RODOVIÁRIOS: Até a metade do ano, o segmento de ônibus rodoviários vivia a incerteza quanto à licitação da ANTT – Agência Nacional de Transportes Terrestres, que envolveria quase duas mil linhas nacionais e internacionais com percursos iguais ou superiores a 75 quilômetros. Os empresários de ônibus não aceitavam o modelo proposto pela ANTT e a licitação era alvo de disputas judiciais e administrativas desde 2008, quando expirou o prazo da maior parte das licenças de operação nestas rotas. Na queda de braço, os empresários de ônibus ganharam. Não vai ter mais licitação e as linhas, com características semelhantes ao que já acontece no setor aéreo, devem ser concedidas por autorizações individuais. As expectativas são de recuperação deste segmento com os empresários tendo o modelo que queriam.
LEGADO DA COPA: Já em relação ao segmento de transportes urbanos, ainda não há uma estimativa positiva em curto prazo. A Copa do Mundo de 2014 deixou um legado na área de mobilidade: um monte de obras incompletas. A maioria dos sistemas de corredores de ônibus, de VLTs, metrô e monotrilhos prometidos antes do mundial não foi entregue. Assim, sem corredor novo, também não se comprou ônibus novo.
ELEIÇÕES E TARIFAS: Em pleno ano de eleição, muitas prefeituras e governos estaduais não se arriscam a autorizar aumentos nas tarifas de ônibus. Várias estão congeladas há mais de dois anos, após serem reduzidas novamente durante as manifestações de junho de 2013. Alguns sistemas recebem subsídios, mesmo assim, o empresariado diz que não é suficiente para dar segurança a uma renovação maior de frota. Em outros, sequer há complemento de verbas, mesmo com as tarifas congeladas.


LICITAÇÕES TRAVADAS E FALTA DE CREDIBILIDADE: As licitações de serviços de ônibus urbanos também não apresentam um quadro animador, desde grandes sistemas até médios e pequenos.
Na Capital Paulista, por exemplo, a licitação dos serviços de 15 mil ônibus, de empresas e cooperativas, deveria ser realizada em 2013. Mas após as manifestações, a prefeitura cancelou o certame para analisar as contas do sistema. Para isso, contratou uma empresa de auditoria Ernest & Young.
Em sistemas menores, como de Mauá, na Grande São Paulo, o cenário foi de insegurança e não atraiu investidores O total é de 248 ônibus envolvidos. Após o descredenciamento duvidoso e contestado judicialmente de duas empresas, foi aberta uma licitação. Só quatro empresas, e na prática três grupos participaram. A companhia contratada emergencialmente é que levou o sistema interior, antes dividido por duas empresas: o mercado já previa isso desde o controverso descredenciamento.
Na área 5 da EMTU – Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos, correspondente ao ABC Paulista, o Governo do Estado de São Paulo não consegue fazer a licitação desde 2006. São aproximadamente 900 ônibus. O resultado é uma frota de ônibus velhos na maior parte das empresas intermunicipais do ABC.
A gestora promete para este ano concluir o certame.
Mauá e a Aérea 5 são provas de que maus gestores, instabilidades do poder público e empresários pouco comprometidos com a melhoria dos transportes também influenciam no mercado de ônibus. Afinal, exemplos como estes, ocorrem no País todo.

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