Além do prejuízo para cerca de 13 mil pessoas que passam pela região, o protesto mostra a falta de diálogo entre o poder público e a população. Segundo o especialista em transporte urbano e professor da Uerj, Alexandre Rojas, a manifestação era previsível. “Essa manifestação já vinha sendo falada há cerca de duas semanas. Eu participei de debates recentemente e as pessoas reclamaram justamente do 736”, comenta.
Além da precariedade no serviço dessas linhas específicas, os moradores têm outras reclamações sobre o Bus Rapid Transit, como superlotação e intervalos irregulares. “A viagem em si é rápida, não tenho nada a reclamar. O problema é a demora na saída dos ônibus, principalmente nos horários de pico. O número de ônibus não suporta o número de passageiros”, comenta William. “Outra coisa é que o terminal Alvorada está superlotado. São dois sistemas: a Transcarioca e a Transoeste. O estacionamento de ônibus fica engarrafado para a saída dos ônibus, dentro do terminal Alvorada. Isso porque não inaugurou ainda o de Deodoro, que também vai fazer ligação com a Alvorda, aumentando o fluxo”, completa.
Para Rojas o BRT é uma opção, mas não a melhor delas. “O BRT é uma alternativa encontrada, de menor curso e menor prazo, ela é a solução possível. O BRT, na atual situação é uma boa alternativa, mas o metrô continuaria sendo o ideal”, completa.
Orlando Santos Jr, pesquisador do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional e do Observatório das Metrópoles,vai mais longe: a forma que o BRT é utilizada é obsoleta e elitista. “Eu fiz uma Missão de Monitoramento no BRT logo depois que ele foi implantado e ele já nasce obsoleto. São linhas lotadas, funciona como um trem superlotado, as mulheres tinham dificuldade de sentar, muitas pessoas tiveram que mudar seu horário de trabalho para poder se adaptar, porque era impossível utilizar o sistema em determinados horários de pico. Isso mostra, obviamente, as falhas no planejamento do sistema. Ele não é ruim ou bom em si mesmo, mas ruim da forma que está sendo utilizado”, critica o especialista.
Ele ainda observa a falta de articulação com outros meios de transporte. “O sistema é interessante desde que articulado com outros modais: a pé e bicicletas, mais especificamente. Mas os pontos de ônibus para os pedestres não estava bem sintonizados com as entradas das estações do BRT, as ciclovias eram insuficientes”, completa ele batendo na tecla da falta planejamento.
O professor acredita que as grandes obras em função das Olimpíadas e Copa do Mundo são, na verdade, uma forma de legitimar um investimento em áreas específicas do Rio de Janeiro: Região Portuária, Barra e Zona Sul. E investimentos feitos de forma muito específica, também, que visam favorecimento de grupos privilegiados. Pensando no BRT, ele viabiliza o uso de automóveis privados, é uma grande obra publica feita por empreiteiras privadas que também é gerida por empresa privada.
“Queremos só o suprimento dessa demanda de transporte para atender a necessidade de mão de obra para a barra da tijuca? Ou queremos descentralizar os polos econômicos da metrópole? Não era melhor ter um crescimento regional mais equilibrado, concentrando os postos de trabalho em vários locais da cidade, que diminuiria a tensão dos fluxos de mobilidade? O que está sendo planejado para a Barra [que está virando um centro econômico e de trabalho] é aquilo que reflete a necessidade da cidade?”, questiona ele.
SMTR aplica multa na concessionária do BRT, depois de protesto
O consórcio Transcarioca informou que está apurando as circunstâncias que causaram a redução dos ônibus da linha 736 e disse ainda que o serviço já foi normalizado. Em relação à multa, o consórcio vai aguardar a notificação oficial.
Apesar de minimizarem o transtornos como um problema pontual, para especialistas e usuários do transporte, o problema não é só a linha 736 e a redução da frota desta linha vem sendo problema há algumas semanas, não só um caso isolado no dia de hoje.
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